Picote: Faísca literária - a combustão da mente infantil


Picote, um menino de papel... imagine o que pode acontecer a ele, se chegar próximo do fogo? 

As crianças de 3 a 4 anos já conhecem o poder do fogo. Sabem que com ele não se brinca.  Porém são curiosas, a luminosidade do fogo as fascina. Utilizam os sentidos para descobrir o mundo. São cientistas naturais. São inquietas por natureza. Mexem em tudo, perguntam. Quando a curiosidade encontra eco na ação dos adultos, que delas cuidam, e nos contextos em que vivem, expandem suas experiências, fazem perguntas, e aos poucos  desenvolvem  a percepção lógica de  causa e efeito, percebem fenômenos,  bem como a capacidade de projetar consequências futuras da reação dos objetos e redimensionar sua forma de interação. 

E foi isso que aconteceu com o Maternal 3. As crianças se depararam com Picote, o menino de papel – história de Mário Valle. Imaginem a falta de sorte de Picote: um cometa passou e uma faísca de fogo caiu sobre ele.

 

O que vocês acham que aconteceu?” Perguntou a professora forjando a antecipação do enredo a partir da análise de informações e conhecimento das crianças.  Falantes, e com necessidade de exercitar a mais nova aquisição do desenvolvimento, a linguagem, as crianças deram seus palpites,  antecipando as consequências: “Ele vai se queimar ... porque papel queima, pega fogo.”  Fomos testar a hipótese. Olhos faiscando de curiosidade! Queimamos um papel... Cinzas, alegria!  A hipótese foi comprovada: caminho aberto para outras experiências...

A história de Picote continuou. Picote foi consertado pelos amigos tesoura e cola.

O interesse das crianças não diminuiu. A turma estava ávida por aprender mais. Uma criança disse que a água apaga o fogo, que poderia ter jogado água no Picote. “E se ele cair na água o que acontecerá?” Hipóteses surgiram. “O papel vai derreter, pois a água desmancha tudo”.  Hipótese confirmada, acrescida da observação de uma criança “No fogo o papel ficou preto, na água ele ficou branco, mas rasgou.”

A observação dos fenômenos, o porquê, a compreensão de causa e efeito, a antecipação de ideias, sugestão, resolução de problemas são objetivos da nossa Educação Infantil, estratégias que alimentam  o raciocínio lógico. A água exerce um fascínio sobre os pequenos cientistas. As perguntas não pararam... “E se colocarmos outros objetos na água ( carrinho, lápis...) o que acontecerá?” Crianças, a pedido da professora, trouxeram de casa  objetos e brinquedos.

O laboratório de sala de aula se estendeu até ao laboratório de Biologia do Colégio, espaço de aprendizagem muito apreciado pelas crianças. Juntamente com Jairo, técnico responsável,  os objetos foram colocados na água.

Comentários das crianças: – “Veja, essa bolinha não afundou, mas agora afundou”. (Empurrou a bolinha com a mão para baixo, ao soltar ela subiu de novo). Movimento que foi repetido várias vezes. Outra criança: – “O meu brinquedo – um bauzinho – não afundou, mas agora ele está lá no fundo.” Explicamos para as crianças que alguns objetos não afundaram porque possuem buraquinhos que se encheram de ar. Exemplificamos: “O copo, os potinhos e o bauzinho não afundaram, mas se os enchermos de água, ficarão pesados e também afundarão.” Criança é como São Tomé, tem de ver para crer, realizamos os experimentos com vários objetos, checando a informação.

Atentas à  experiência uma criança falou: “O cotonete  que eu trouxe não afundou. Eu não estou vendo buraquinho nele.” . Retiramos o algodão ... e quando alguns se encheram de água  afundaram.

Alegria e encantamento. Para as crianças, mágica! Para a professora, estímulo para usar os sentidos e descobrir mais sobre o “porque” e o “como” ocorrem os fenômenos, como o mundo se organiza, proporcionando aprendizagem sobre o mundo físico.
Brinquedos desafiantes, situações concretas, novas e provocantes, utilizando a  experiência com os objetos (acertar um alvo, rolar objetos, colocar objetos na água, etc) exercitam as capacidades cognitivas infantis: observar , perguntar, descobrir, expor suas ideias,  buscar explicações, agir.  Ajudam a  adquirir o prazer de entender e aprender, favorecendo a construção de  conceitos  que sustentarão aprendizagens futuras (Química, Física).  Os conceitos não são formações isoladas, mas redes de aprendizagens, processos intelectuais que têm  origem na infância. São modelos, construções mentais  promotores  do desenvolvimento e possibilitadores de aprendizagem.

A mola propulsora do desenvolvimento infantil, seja ele físico, cognitivo, afetivo é a ação e a interação da criança com o meio socioculltural, acompanhada de adultos entusiasmados e questionadores.  Nessa época de mídias sofisticadas, mais do que nunca nossas crianças precisam sair de frente da TV  e brincar, explorar os objetos, trocar ideias... No Maternal do Colégio Santa Dorotéia, é contexto de desenvolvimento, com brincadeiras e atividades instigantes que alimentam o cérebro, e consequentemente, o desenvolvimento infantil.

Picote, uma história. Picote uma experiência de combustão da matéria e da mente no Maternal.

Ivonize Silva Santos Pereira – Professora do Maternal
Marly Araújo – Supervisora Pedagógica da Educação Infantil e 1ª série EF.